Relatadores de futebol

Separadores primários

Na fotografia, Daniel Rodrigues

O relatador de futebol não é como o cantor de ópera, mas tem de aguentar 90 minutos a relatar o jogo com voz imponente. Não é escritor ou poeta mas elabora expressões de forte densidade e emoção. Num jogo, o relatador classificou um jogador em campo como cientista da bola e inventor. Num dado momento, quando os adeptos atiraram fruta para o terreno, o relatador dizia estar-se num supermercado, ou melhor, numa grande superfície. A cada golo ou tentativa de golo, ele gritava, exultava, prolongava a duração das palavras, ria, quase chorava.

O relatador de futebol na rádio cria e recria ambientes, exagera o que é normal, descobre e descodifica sinais que os habituais assistentes ao jogo não vêem. Por vezes, o relatador pede ajuda a um colega que acompanha a emissão da televisão, à procura de justificação para as atitudes de momento, para encontrar e dizer a verdade ao ouvinte. O relato de futebol na rádio é quase uma obra-prima, fica muito acima da televisão, onde o comentador diz coisas óbvias que nós também encontramos na imagem. O locutor que relata na rádio é um entusiasta do espetáculo, um artista, um construtor, quase um génio, tem uma paixão. Por isso, eu gosto muito da rádio.

A 24 de fevereiro de 2014, realizou-se a terceira edição das Jornadas de Comunicação e Desporto na Universidade de Coimbra. Retive algumas das comunicações, como as de Alcino Pedroso (narrativas do jogo na televisão), Hilario Romero (narrativas na rádio, em especial nas tertúlias e reportagens desportivas), Mariana de Carvalho (relação entre jogo na televisão e assistência de espectadores e adeptos no estádio), Jesús Calderón (séries de ficção com personagens do futebol), Fábio Ribeiro (desporto e rádios informativas) e José Carlos Marques (o desporto no Brasil e os media).

Na fotografia, Daniel Rodrigues, fotógrafo português que venceu o World Press Photo 2013 na categoria “Vida Quotidiana”, João Figueira, docente da Universidade de Coimbra, e Vítor Serpa, director do jornal A Bola.

Eu nunca tinha falado de futebol em público e num espaço académico. Recordei nomes de relatores (ou relatadores) de futebol como Alfredo Quádrio Raposo, Artur Agostinho e Nuno Brás. Gostei muito de estar naquele espaço de discussão. Obrigado ao Francisco Pinheiro, um grande entusiasta da história do desporto, e do futebol em particular.