Ouvindo por aí na radioesfera… (1)

Separadores primários

Exemplo de rádio DMR barato, Radioddity GD-77

“O meu rádio é sensível de mais”
Já ouvi esta expressão muitas vezes e, a pesar disso, nunca deixo de sorrir.
O que se passa é que, quando o radioamador liga a antena exterior ao transcetor, geralmente um portátil chinês de DMR, escuta, em determinadas frequências, coisas que não deviam lá estar.
Os equipamentos usados pelos amadores para operar em DMR nas bandas de VHF e UHF não foram projetados para esse uso.
A sua utilização está virada para uso empresarial, comercial ou como simples Walkie Talkie, sem compromissos de qualidade ou precisão nas suas especificações.
O facto de serem aparelhos muito baratos, tornou-os apetecidos pelos amadores e, como para estes, o engenho e arte são coisas que não faltam, logo foram adaptados este uso.
A própria complexidade aparente do DMR resulta desse facto, não foi pensado para ser usado em comunicações de amador.
Mas, sem dúvida, tem sido um componente importante para a democratização do radioamadorismo que, ou pelo preço dos equipamentos de marca ou pela necessidade de conhecimentos técnicos, sempre foi para uma elite de gente abonada em dinheiro ou bagagem técnica.
Haveremos de falar mais sobre isto.
Atualmente uma boa parte dos recetores usam uma tecnologia chamada SDR, Software Defined Radio, ou seja, rádio definido por software. O que é isto?
Como o post está a ficar muito grande, prometo que explico isto mais tarde, mas, de uma forma básica, a parte de receção fundamental, amplificador de RF, oscilador local e misturador, são feitos por hardware (e um exemplo disto são as dongle RTL SDR) e o andar de frequência intermédia, AFC, AGC, detetor, filtros, etc, são definidos por software.
O resultado é um circuito muito barato e que, quando bem concebido, funciona bem.
Muitos equipamentos de topo usados pelos radioamadores usam esta tecnologia e com performances extraordinárias.
Mas é tudo uma questão de preço.
Os rádios chineses feitos para comunicar em DMR têm um circuito de entrada muito sensível, porque são feitos a pensar num uso portátil com a antena original, mas não conseguem ter seletividade, regeição de canal adjacente, filtros de RF, etc, que, quando na presença de sinais fortes os torne imunes a espúrias.
Assim, o mais certo é que, em presença de um sinal forte e outro também forte numa frequência relativamente próxima, ele acabe por baralhar as duas.
Temos de entender que o investimento em hardware de qualidade, software cuidado e construção decente, tornaria o produto mais caro e o afastaria, não só dos destinatários originais para quem o rádio foi pensado, mas também para os amadores que querem cumprir o hobby de falar, literalmente, com todo o mundo.
E viva o radioamadorismo, viva o DMR e os rádios de cem euros!
E, já agora, o seu rádio não tem sensibilidade a mais, tem qualidade a menos…

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