História da rádio em Portugal

Separadores primários


A RÁDIO EM PORTUGAL



Rádio TELEFUNKEN


Em Portugal, eram já muitos os que tentavam, às suas custas receber emissões, criando receptores que na maioria dos casos não funcionavam. Mas em tudo há excepções, e um desses curiosos merece o devido destaque, já que conseguiu ultrapassar e vencer a incompreensão e desânimo de muitos, até chegar à montagem de uma verdadeira estação de Rádio.


Foto de CT1AA


Abilio Nunes dos Santos foi esse homem. Dirigiu a estação que passaria à história sob a denominação CT1 AA. O seu esforço valeu bem a pena já que este projecto viria a ser desenvolvido e prosseguido por Américo dos Santos, que conseguiria constituir uma das mais populares estações emissoras na altura: A Rádio Graça.

Alguns interrogam-se sobre a origem do nome desta estação já que os seus maiores momentos foram passados e vividos não no velho bairro Graça mas sim numa vivenda do Restelo. No entanto foi na Graça que o seu fundador criou todas as condições para emitir e daí a denominação.


Galena 1916, museu RDP


A 25 de Outubro de 1925 surgiram as primeiras emissões que eram preenchidas por mensagens de saudação ao auditório desconhecido.

Afinal até onde chegaria o sinal de rádio que era enviado? Nem o próprio Américo Santos sabia. Só algum tempo depois, recebeu uma carta de Tomar informando-o da recepção do sinal com qualidade razoável. Até finais dos anos 40 a loucura radiofónica traduzia-se na montagem desenfreada de emissores e de estações que, em disputa, poderiam ter posto em perigo o normal desenvolvimento das mesmas.

Incluído nesta onda de euforia, o Porto via nascer, em Maio de 1930, a primeira estação do norte: A Rádio Sonora. A iniciativa surgiu, na altura, de 3 irmãos. Um deles, Antero Calheirosa Lobo. Instalou-se no nº249 da rua Sá de Bandeira, num edificio que viria a ser totalmente ocupado pela emissora. Pena foi que o emissor fosse bastante fraco, já que ao nível de instalações a rádio Sonora era das melhores.

Quem já teve a oportunidade de ver o filme "O PÁTIO DAS CANTIGAS" certamente se recorda do "Alô, alô D. Rosa, chegou a sua filha", e das experiências do famoso Engenhocas. Pois bem, este poderia ser o retrato das primeiras transmissões radiofónicas realizadas em Portugal a partir dos anos 20. Embora a generalidade das emissões sejam efectuadas por amadores que consoante o seu entusiasmo e tempo livre vão emitindo para o seu bairro, música, declamações de poesia ou peças de teatro, realizadas quase sempre pelo grupo dramático da própria estação, o posto emissor CT1AA era uma excepção, sendo a primeira estação nacional profissionalizada. Naquele tempo tinha linhas telefónicas directas para o Teatro Nacional, Sociedade de Geografia, Teatros Variedades e Maria Vitória e um segundo estúdio de dimensões consideráveis na Rua do Carmo, onde poderia acomodar mais de uma centena de músicos, para além do público que nesta época assistia aos programas.


Equipamentos de CT1AA


Com o rápido desenvolvimento da Rádio, foi publicado em 1930 o primeiro diploma legal sobre a TSF (Telegrafia Sem Fios). Entre 1931 e 1933 surgem novos postos emissores entre os quais, a Alcântara Rádio, o Clube Radiofónico de Portugal, Rádio Rio de Mouro e Rádio Clube da Costa do Sol iniciam a sua actividade em 1931, a Invicta Rádio, Radio Clube Lusitânia, CT1DS, Rádio Graça, Rádio Luso e Rádio Amadora em 1932, e no ano seguinte a Rádio Peninsular e a Radio São Mamede. A maioria dos postos emissores emite em directo para os seus bairros, embora alguns tenham possibilidade de ser escutados fora deste círculo. Por esta altura as estações emissoras têm horários diferentes, mantendo as suas emissões a poucas horas maioritariamente à noite, entre as 22 e as 23 horas, havendo no entanto quem emita entre a meia noite e as duas da manhã, sendo a programação anunciada em revistas semanais como a Rádio Magazine ou a Rádio Novidades.

Em Maio de 1932, realizou-se o I Congresso Nacional de Radiotelefonia promovido pelo jornal "O Século". Por imposição do Estado Novo não é autorizada a emissão de publicidade, alegando que os postos não devem ser um instrumento para a especulação comercial, o que constituiu a muito curto prazo um grave entrave ao desenvolvimento técnico dos postos emissores. Devido a esta medida muitos postos emissores vão acabar a breve prazo, abrindo espaço à criação de Estações com cobertura Nacional. O Radio Clube Português, resultante do crescimento do Rádio Clube da Costa do Sol, propriedade de Jorge Botelho Moniz - CT1GL, oficial do Exército que tomou parte no 28 de Maio de 1926, e que mantinha boas relações com o Estado Novo, inaugurou em 1934 umas modernas instalações com a presença do Presidente da Republica.

Para se ter noção do desenvolvimento e da profissionalização desta estação, bastará dizer que já nesta altura estava equipada com as primeiras viaturas de exteriores existentes em Portugal, e que foi autorizada a explorar a publicidade.

A partir de 1936, quando já emitia até à uma hora da manhã. O nome de Jorge Botelho Moniz e o seu indicativo CT1GL ficaram também na historia da Rádio, devido ao primeiro relato radiofónico de um jogo de futebol realizado no ano de 1933 em Lisboa, entre as selecções de Portugal e da Hungria.

O Estado Novo consciente do poder da TSF, decidiu construir a sua própria Estação emissora, a exemplo do que vai acontecendo por essa Europa fora. Em 1933 por decreto-lei assinado pelo Ministro Duarte Pacheco, é criada a Emissora Nacional, embora a sua inauguração só ocorra em 1935.

Com o surgimento da Emissora Nacional, o posto emissor de CT1AA, encerra as suas emissões, nesta altura já com um grande leque de ouvintes nas Colónias de África e na emigração.

A igreja católica atenta também a este fenómeno, avança em 1937 com a criação da sua própria emissora, a Rádio Renascença, cujos fundos iniciais foram angariados junto de fiéis de todo o país. Mesmo com o aparecimento das poderosas estações entretanto criadas, em 1940 ainda se encontravam a transmitir 298 postos de amadores e mais de duas dezenas de estações particulares.


Foto de rádio Zenith


Na rádio desse tempo a competitividade Lisboa-Porto já existia, como hoje de resto. Assim registam-se nomes no Porto como: Rádio Porto ; Sonoro Rádio ; Ideal Rádio. Em Lisboa : Rádio Hertz ; Rádio Luso ; Rádio S.Mamede ou Rádio Peninsular. Estas rádios já apresentavam programações de luxo em que o especial destaque era dirigido às radionovelas de teatro Português. As emissões raramente excediam as 3 horas com programação musical. A pesar das disputas, as emissoras mantinham uma grande unidade entre si. Desta forma, combinavam-se os horários de emissão entre todas e desde as 14 até às 24 horas, todos faziam a sua emissão. A vantagem era toda dos ouvintes que podiam escutar todos os programas a horas diferentes, já que nunca havia duas estações a emitir ao mesmo tempo.

Desde então até aos dias de hoje a rádio evoluiu bastante.

Em Portugal houve dois marcos importantes e foram determinantes na evolução da rádio no País. Sem dúvida que um deles reporta a 1975, altura em que diversas estações foram integradas na RDP. Os documentos de arquivo existentes mostram que pelo menos 8 rádios tiveram essa sorte: Rádio Graça ; Emissora Nacional ; Rádio Clube Português ; Rádio Voz de Lisboa ; Rádio Peninsular ; Rádio Ribatejo ; Alfabeta e Rádio Alto Douro. Tal integração aconteceu devido à Nacionalização da radiodifusão em Portugal pelo estado Português desde o dia 2 de Dezembro de 1975. Curiosamente, quase 13 anos depois, surgia a 2ª grande revolução, que resultou no mais importante processo de remodelação da Lei da Rádio com resultados práticos. Mas para explicar melhor esta "2ªrevolução" é necessário voltar alguns anos atrás. Após a Nacionalização a rádio portuguesa sofreu um revéz bastante acentuado. A existência de um monopólio RDP / RR, impediu que o sector se desenvolvesse normalmente até que em 1984 algo começa a mudar e surgem as chamadas Rádios Piratas ; Estas rádios também chamadas de "livres", reflectiam a falta de legislação sobre radiodifusão e à inexistência Juridica que impedia que grupos económicos privados pudessem abrir as suas próprias estações. Estas rádios que mais tarde serviriam de jurisprudência, criaram uma situação ilegal que mais tarde o estado teve de resolver.

O "surto epidémico" começou em Lisboa. Uma das primeiras rádios a surgir foi a Rádio Cidade, hoje uma das populares estações em Portugal. Curiosamente os principais responsáveis por este projecto eram de origem Brasileira. O facto de o sotaque ser diferente impulsionou desde logo esta rádio. Lisboa viu nascer, na altura, várias estações ao nível em que quase em todas as localidades existia um pequeno emissor, um pseudo-locutor, e muita música. A rádio perdia então muita da conversa que a havia preenchido nos anos passados. A pluralização criou-se num fenómeno que só terminaria em 1988. As condições destas rádios eram, aos olhos de hoje, inimagináveis. A receita passava pelo emissor, 2 pratos, uma mesa de mistura e pouco mais. Os operadores eram, na sua maioria, amadores. Os chamados "curiosos" amantes da comunicação e que tornaram a rádio menos formal e mais dinamica. Neste caso a inexperiência jogou a favor destas pessoas. A Rádio Cidade foi disso um exemplo. A comunicação solta, descontraída, e claro a pronúncia, fêz escola nas rádios nacionais. Na amadora surgiram em 1985 e 86 várias estações: Rádio Regional da Amadora ; Rádio Horizonte ; Rádio Nova Europa ou Rádio Mais. Em Lisboa estações como: TSF ; Correio da Manhã Rádio ; Rádio Geste. São alguns exemplos de rádios piratas que sobreviveram.

Legalização ; Perante esta parafernália o governo decidiu, finalmente, intervir. Em 24 de Dezembro de 1988 mandou encerrar todas as rádios "piratas". Todas elas puderam então apresentar o seu projecto de Legalização e perante condições, estruturas, motivações e outros indicadores, o governo decidiu uns meses depois quem deveria continuar e quem teria de encerrar os seus emissores.

Em meados de 1989, começavam a aparecer as primeiras rádios privadas e legais em Portugal, num processo que, embora tardio, permitiu adequar a quantidade de rádios ao mercado nacional Português. Segundo o Governo o nº de rádios diminuiu para menos de metade. E desde então têm-se assistido à fusão de rádios nos grupos económicos mais fortes, diminuíndo ainda mais o seu número. O panorama actual é disso exemplo, havendo hoje estações que adquiriram pequenas rádios para difundir em maiores àreas nacionais espalhadas pelo país. Rádios como: a TSF, Rádio Cidade, Rádio Nova, Rádio Nova antena, Rádio Nostalgia e outras, são exemplos de estações que emitem hoje para vários pontos do país de Norte a Sul.

Um processo longo que parece ter estabilizado nos dias de hoje.



Comentários

é interessante o q vc comenta sobre a história do radio em portugal

:jawdrop: :jawdrop: Curti as músicas que encontrei na parte da "web rádio"... Ah... e este último rádio... uff... maravilhoso... lol

bjx

Preciso de algumas letras de músicas de Portugal que tenha burlado o regime salazarista ou tenham sido censuradas... é para um trabalho de monografia.

agradeço a atenção de quem puder me informar onde encontro.

abraços
Deyse

Parabéns pela página. Já agora, deixo uma dica para quem tem iPhone e quer ouvir rádios portuguesas:

Já está disponível a nova versão da Rádios de Portugal. App desenvolvida em Portugal, por uma equipa de antigos estudantes da Universidade de Coimbra.
Está disponível em:
http://itunes.apple.com/pt/app/radios-de-portugal/id372365433?mt=8

Entre os novos recursos estão:
- temporizador. Já pode ir dormir ouvindo a sua rádio preferida.
- funciona mesmo em modo "Sleep". O que permite poupar imensa bateria...

estou a fazer um trabalho sobre a rádio e gostaria de saber mais sobre este tema.Principalmente no que diz respeito á evolução da rádio em Portugal.Obrigado
Aguardo resposta

É uma pena não ter mencionado a Rádio Nova Era 101.2( Vila Nova de Gaia). Para além de ter 20 e tal anos de existência, é uma das rádios com maior audiência no norte.

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