A rádio em África (14)

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3. Sebastião Coelho [a partir do meu livro A Rádio Colonial em Angola, 2020]

Do tempo da rádio colonial em Angola, destacaram-se, em meu entender, três cidades – Luanda, a capital, Nova Lisboa (atual Huambo) e Sá da Bandeira (atual Lubango). Hoje, escrevo sobre Rádio Clube do Huambo, estação que contratou os primeiros profissionais da rádio, em 1949: Fernando Curado Ribeiro e Joana Campina Miguel. Menos de um ano depois, Curado Ribeiro abandonou a cidade e a rádio para ir trabalhar para o Congo Belga. Joana Campina, licenciada em História pela Faculdade de Letras de Lisboa, manteve-se na rádio e entrou para a escola comercial e industrial da cidade como professora.

Dos elementos iniciais de maior peso na rádio de Nova Lisboa, destaco ainda Sebastião Coelho. A vida deste e de Joana Campina Miguel cruzaram-se afetivamente, nascendo dois filhos dessa união. Sebastião Coelho seria responsável pelo primeiro programa em umbundo, Cruzeiro do Sul, surgido em 1960, simultaneamente comercial e a expressar a angolanidade. Um público-alvo essencial, o africano ou de cultura negra, tinha sido negligenciado. Nesse programa, Judite Luvumba e José Castro seriam os primeiros locutores e apresentadores negros da rádio angolana.

Patrocinado pela Cuca, o programa passava gravações de grupos e artistas locais, casos de Beja Sebastião, Boavida Júnior, Fernando Tchikambi, Mulambo, Romeu e Zé da Viola. Certamente que Sebastião Coelho escutava a rádio da Zâmbia, uma das estações pioneiras na recolha do património oral e musical africano. O programa acarinhou ainda as modalidades desportivas, como o futebol, conduzindo à criação de clubes de bairro e popularizando, mais tarde, os torneios da Cuca.

Rapidamente, as implicações sociais e políticas levaram ao seu desaparecimento, com prisão do locutor e realizador em 1963, conquanto ele reaparecesse pouco depois em Luanda e a fazer programas em línguas nacionais de Angola, Tondoya Mukina o Kizomba, em quimbundo. Outro programa popular dele seria “Café da Noite”, a emitir pela Rádio Ecclesia. Na altura, ele era sócio de João Charulla de Azevedo, entretanto falecido.

Outras estações seguiram o exemplo de Sebastião Coelho, sempre limitadas no tempo de emissão e objetivos e temendo a reação da censura política e militar. Associo este movimento à compra de Rádio Comercial de Angola por Mota Veiga em 1966, no que considero o começo da quinta etapa da história da radiodifusão angolana. Tratou-se de orientação comercial de maior envergadura, e aposta nas relações com Rádio Ecclesia e Sebastião Coelho, a dar peso aos produtores independentes com estúdios modernos. Mas, ao mesmo tempo, a entrada financeira de Mota Veiga no capital da estação marcou o lado político. O empresário estava identificado pela PIDE desde que o prémio de literatura com o nome da sua mãe fora atribuído ao preso político Luandino Vieira (1963).

[continua]

[imagens: documentos da PIDE sobre a atividade de Sebastião Coelho; ele e Maria Helena Charulla Azevedo; publicidade ao programa Café da Noite, revista Notícia, 1 de janeiro de 1964]