A (re)descoberta

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A (RE)DESCOBERTA


No início dos anos 80 a PHILIPS anunciou com pompa e circunstância, o lançamento de um novo e revolucionário suporte musical, o CD.

Esta pequena rodela era apresentada como possuidora de uma qualidade inexcedível, sem ruídos, estalidos ou desgaste.

O som era de uma pureza impressionante, só possível graças à codificação e tratamento digital. Era tão puro que pouco tempo depois percebemos que era puro demais.

Mas, fruto de tantos anos de convívio, nem sempre fácil, com o vinil, os discos que já se compravam riscados, empenados e cheios de estática, rapidamente o CD tornou-se a nova companhia, fazendo-nos atirar para o sótão, em alguns casos pior ainda: para o lixo, os velhos e grandes discos pretos.


Gira-discos Dual, muito popular em meados dos anos 70


Adeus agulhas estragadas, adeus líquidos e escovas de limpeza... Mas, o pior é que, com eles, também foi muita da música que nunca mais voltamos a ouvir, foram as grandes e belíssimas capas, as peregrinações pelas lojas de discos em busca de uma raridade, e, entre tanta coisa que se foi, voltou a saudade.

Duas décadas depois o vinil tinha morrido. As fábricas fecharam, os gira-discos desapareceram, discos, agora, só se fosse coisa de saudosista ou coleccionador.

Mas seria mesmo assim?

Alguns resistentes e tantos outros persistentes nunca abandonaram o vinil. Mantiveram-se fieis a uma paixão antiga. Entretanto, os outros, foram acumulando decepção sobre decepção com o novo formato e, a lembrança do que ainda existia no sótão fê-los, aos poucos, com medo até por ser diferente, voltar ao velho suporte.


Máquina de lavar discos Knosti


Limparam-se os discos, procurou-se uma nova agulha para o velho gira-discos e a emoção voltou ao ouvir e recordar sons, vozes, músicas, letras, capas, que há décadas estavam arrumadas.

A memória fez uma viagem no tempo, relembraram-se momentos felizes, as fugas ao liceu para ir ouvir música nas Jukebox, os primeiros cigarros ao som dos Deep Purple, aquela namoradinha que gostava muito de Neil Diamond:

"Song sung blue
Everybody knows one
Song sung blue
Every garden grows one"

Na generalidade foi uma redescoberta. Verificaram que não estavam sozinhos, que existiam muitos outros ouvidos fieis ao vinil, não faltavam na Internet lojas de venda de discos, novos gira-discos, novas edições, etc. Melhor ainda, os gira-discos tinham mais qualidade, as edições, por serem muito mais limitadas, eram excelentes, existiam edições especiais em discos de 180g, um luxo, com fantásticas capas e, como se isto não bastasse, os grupos e artistas mais recentes, incluindo os de rock, estavam a editar os seus trabalhos em vinil.

Daí até isto se tornar num vício foi um pequeno passo. Comprou-se um novo gira-discos, escovas, líquidos, máquina de limpeza, capas para os discos antigos, começaram a ser frequentadas feiras de usados, lojas de discos, sites de leilões na ânsia de encontrar raridades, etc, etc.

Para muitos foi a vingança do vinil, deixaram literalmente de ouvir os prateados CD's.


Alguns testemunhos


Capa do disco Desconstrução de Eugénia Melo e Castro


Eugénia Melo e Castro, numa entrevista dada sobre o lançamento do seu 21º disco "Popurtugal", explica como surgiu a ideia de fazer um disco recordando e recriando canções dos anos 90. Como tinha feito cópias em vinil do disco "Des Construção", de 2004, lembrou-se de ir ouvir os velhos LP que tinha em casa.
"Comprei um gira-discos moderno, aprendi a lavar os discos com sabão e dei comigo a escolher: agora quero ouvir estes cinco, depois aqueles… E comecei a lembrar-me da Gabriela Schaaf. Ou da Romaria dos Jáfumega, que até reporta à banda do Chico Buarque: 'toca a banda no coreto'. Foi uma grande diversão para mim, ir buscar músicas que vi nascer. O Amor É Cego e Vê, que fiz em 1990 só com canções"(...)

Um relato sobre a relação com o vinil é magistralmente escrito por José Victor Henriques, jornalista, audiófilo e melómano, responsável pelo site HIFI Clube:

(...) "Eles merecem que me associe numa homenagem a esta paixão comum pelo analógico. Tenho este texto guardado no frigorífico do meu computador e regresso a ele sempre que algum acontecimento me suscita o desejo de o republicar na íntegra, não sem antes o reler e burilar.

Nunca o deixo como o encontrei, como se fosse possível encontrar a perfeição na mutação. É, de certa maneira, uma forma de me penitenciar pela traição de ter abandonado os gira-discos, como quem repete avé-marias em busca do perdão divino:

«Retira-se o disco da capa com dois dedos leves, qual hóstia sagrada em acto litúrgico. Coloca-se o disco no prato e faz-se descer o braço. Há quem consiga apontar a agulha com a precisão de um cirurgião, que só depois segue pelo seu pé o tortuoso caminho, contrariando a força centrífuga e lavrando sons enterrados na superfície ondulante de espiras hipnóticas, numa fritura branda e estranha para quem já nasceu na era digital.

A arte de baixar e levantar manualmente o braço do gira-discos devia ter um capítulo na Ars Amandi, de Ovídio. Quando a agulha penetra a espira em profundidade, inicia-se o coito musical, que pode durar apenas o tempo de uma faixa ou um lado completo: A ou B. Até o virar do disco tem um efeito de suspensão narrativa, um sentimento de puro gozo de antecipação, que se perdeu com o CD, tal como o intervalo no cinema.

No final o disco continua a girar, mesmo quando a música já deixou há muito de se ouvir, numa atitude lânguida de abandono: os puristas rejeitam os mecanismos de elevação automática do braço. O verdadeiro amante, satisfeito o desejo, não gosta de abandonar a alcova sem uma última manifestação de carinho: limpa carinhosamente a agulha das trovas do tempo que passa."

(Aqui está o artigo completo)

Comentários

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José Lopes


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